O Futuro do RPG Legend of the Five Rings


Um dos meus RPGs favoritos de todos os tempos é o L5R. Joguei desde a 2a edição e o jogo sempre teve materiais de alta qualidade, com uma passagem duvidosa pelo sistema D20, mas desconsiderando o sistema, a parte histórica dos livros é muito boa.

O meu problema com o L5R sempre foi o sistema. Ele usa desde a 1a edição um sistema chamado Roll & Keep que consiste em uma pilha de d10 onde você rola X dados e pega Y dados e soma os valores. No geral funciona muito bem no início da carreira dos personagens, mas com a evolução do PJ o sistema começa a incomodar pela quantidade de dados rolados, delay para fazer a soma e pelos altos valores de alguns resultados.

Na verdade este costuma ser um dos problemas de sistemas que visam bater um número alvo determinado pelo GM. Alguns RPGs possuem valores fixos de dificuldade e por isso toda a mecânica gira em torno deste valor ficando difícil extrapolar certos limites. Um bom exemplo de uma mecânica bem construída em cima de um número alvo é o The One Ring.

Com a passagem pelo D20 a coisa não melhorou em nada. Na verdade até piorou porque além da mecânica de número alvo ser fundamentalmente a mesma, ainda se somou todos os outros defeitos do D20, sendo principal problema à meu ver forçar uma mecânica gamista em um jogo que à princípio tem um peso narrativista maior. Tanto que a maior parte dos jogadores prefere o sistema Roll & Keep, que na 3a edição retornou com tudo.

A quarta edição trouxe uma modernização sem precedentes aos livros e sem dúvida é a mais bela de todas as edições. A mecânica ficou basicamente a mesma com ajustes de equilíbrio entre os PJs o que agradou alguns e desagradou outros porque algumas das classes mais fortes foram enfraquecidas.

Mas uma coisa no meu ver piorou nesta edição. Notadamente ela é a edição com menor mortalidade das versões R&K e isso exacerba o problema da mecânica. Tanto que para jogar acabei fazendo alguns ajustes e house rules para tornar mais jogável. Nesta edição dificilmente um duelo termina em morte no primeiro golpe, por exemplo, e apesar dos jogadores geralmente gostarem de PJs mais fortes, isto é anti temático.

Um duelo é uma coisa que deve ser levado com extrema seriedade, trata-se de um evento na vida do PJ. Ele precisa de permissão do seu mestre para entrar em um duelo para se ter uma ideia. Se você for um courtier e não souber lutar, você pode nomear um substituto para lutar em seu lugar, mas se ele perder você deve se matar com um ritual de sepukku. Este é o peso de algo assim e as edições anteriores simulavam muito bem o risco de se sacar a espada. Assim como na vida real você tem uma boa chance de morrer no primeiro golpe.

Bom, a 4a edição já tem mais de 5 anos o que pode sinalizar uma mudança ou nova edição, mas outro fato nos traz esta possibilidade. A AEG vendeu ano passado a propriedade intelectual do L5R para a FFG. Isto significa que toda a linha do jogo seja o cardgame, boardgames, RPG, romances, miniaturas e etc, agora estão nas mãos da FFG, mas o que significa isto para nós jogadores?

Primeiramente, não sei se as pessoas que jogam o CCG vão gostar ou não, mas a FFG vai extinguir o CCG e substitui-lo por um LCG. Para quem não sabe os Living Card Game são um outro formato de cardgame que é um intermediário entre um CCG como o magic, onde você compra  boosters com cartas aleatórias para montar seus decks e um Boardgame de cartas como o Dominion onde todas as cartas do jogo necessárias para as partidas já vem na caixa de jogo, podendo haver expansões.

Os LCG como o Warhammer Invasion, possuem uma caixa com cartas suficientes para jogar uma partida entre geralmente 2 jogadores, mas existe um elemento muito forte de construção de decks como nos CCG. A diferença é que em vez de boosters aleatórios, os jogadores podem comprar expansões temáticas com as cartas novas.

Na minha opinião os CCGs são um formato ultrapassado que não consegue mais a abrangência que teve nos anos 90. Talvez hoje o formato mais viável de CCG seja digital como é o caso do Heartstone, mas isto somente porque é possível jogar sem gastar nenhum centavo. Se o jogo possuísse apenas boosters pagos como em um CCG físico, tenho certeza que teria muito menos jogadores.

Neste contexto acho que a  mudança do L5R CCG para LCG é uma mudança natural. Provavelmente ele terá uma revisão das regras, pois elas permaneceram praticamente inalteradas desde os anos 90 e ao contrário do Magic, as regras do L5R não permitem uma grande variedade de mecânicas novas.

Em relação aos outros produtos minha visão é dividida. Tenho certeza de que a FFG tem competência e uma boa probabilidade de criar uma grande variedade de jogos de tabuleiro, cards e talvez até miniaturas. Já pensou um DBG de L5R? Ou um skirmish game com minis pintadas? Ou ainda um BG de guerra com minis como o Ikusa? E um jogo cooperativo na batalha do Oblivion Gate contra Goju Adorai?

Minha preocupação é em relação ao RPG. Apesar da FFG ter criado inúmeros RPGs muito bons como o trabalho que ela fez com o WH40K e o que ainda faz com o Star Wars, parece que a FFG tem abandonado outros projetos de RPG em favor do Star Wars que logicamente vende muito mais por ser uma franquia maior e com uma base de fãs maior.

Mais preocupante ainda depois do que aconteceu com o Warhammer Fantasy. A FFG na terceira edição criou uma bizarrice mista entre RPG, BG e CG e depois, mesmo tendo os direitos do produto, deixou ele abandonado por pelo menos 4 anos sem ver uma edição nova ou mesmo manter o suporte para a 3a edição. O resultado é que a licença da GW venceu e toda a linha do Warhammer, tanto Fantasy como 40K, foram devolvidas e tudo continua no limbo.

Eu certamente gostaria de uma revisão nas regras do L5R RPG e talvez até uma nova edição com um sistema mais moderno, mas muita gente comenta em forums que dificilmente compraria os mesmos livros de novo em uma nova edição que é o que essencialmente vem acontecendo desde a 1a edição, toda vez que uma nova edição foi lançada: praticamente o mesmo material disperso em livros de clãs ou coletâneas deles.

Resta aguardar o que o futuro reserva para o L5R e torcer para gostarmos do que está por vir.

Comentários

  1. Tenho me feito estas mesmas perguntas tem algum tempo. Excelentes ponderações.

    Compartilho os mesmos sentimentos que você em relação aos sistemas da 1a e da 4a edição e inclusive já fiz alguns testes para resolver alguns dos problemas apontados. A game engine precisa de atualizações, mas ainda é boa. O problema é a inflação de ranks. 5 já era muito e depois expandiram para até 8. A primeira edição era muito mortal (e bacana demais) e o máximo que consegui evoluir um grupo construído com a pontuação inicial foi até rank 3 e com muitas baixas no caminho.

    Esse nível de poder (1-3) já estaria bom demais pra mim e 90% dos jogadores, pois hoje em dia pra jogar uma campanha com mais de 20 sessões é dureza.

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  2. Fala Luciano. O R&K não é um sistema ruim não, mas me incomoda em pouco tempo os jogadores estarem rolando 12 ou 13 d10 e tendo que converter dados jogados em dados segurados. A impressão que eu tenho da 4a edição é que em pouco tempo é muito difícil falhar em algum teste. Nas magias então chega a ser ridículo. Eu realmente espero que saia alguma atualização ou nova edição porque é um jogo muito bacana e merece um bom suporte.

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  3. Na primeira edição estas paradas de dados absurdas eram mais improváveis pois os atributos e perícias iam de 0-5. Depois começaram a sair os clan books com NPCs absurdos com atributos 8-9 e skills em 6 que enlouqueceram os power gamers.

    Um primeiro passo para restaurar o equilíbrio do jogo na mesa é restabelecer o limite de 5 para atributos e perícias para PCs, salvo raríssimas exceções. Outra seria estabelecer um rank cap de 5. Isso já deixaria o endgame menos quebrado.

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  4. O problema da 4ª edição é que existem as masteries que vc ganha em certos ranks, entao limitar em 5 as skills acaba por eliminar estas habilidades extras. Por outro lado o custo de xp par subir as skills é muito barato e em pouquíssimo tempo pode-se atingir o 5º rank em uma skill, pois foi desenhado para ir além. Realmente no meu ver, apenas tentar dar uma ajeitada fica meio difícil. O ideal seria reestruturação completa e bem testada. No geral essa discrepância em um jogo leva o PJ a ser imbatível na skill que ele maximizou, mas completamente inútil em outras que ele não investiu.

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  5. Concordo. Todas a minhas sugestões mexem na estrutura do sistema e devem ser testadas e ajustadas. Não é pra ser feito no facão. Eu jogava a 4ª edição pelo livro e não esquentava muito com estes problemas na mesa.

    O problema do sistema do L5R é que o jogo perdeu muito tempo com algumas revisões radicais e, na minha opinião, mal desenhadas. Veja o quanto o sistema mudou na 2ª e 3ª edições. A 4ª, de certo modo, é um retorno ao sistema original, mas incorpora vários elementos das revisões anteriores. O que devia ter sido feito era uma revisão no sistema da 1ª edição, corrigindo distorções e inconsistências, mas sem grandes rupturas no sistema. Mais ou menos o que historicamente foi feito nas revisões do Call of Cthulhu.

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  6. Eu tb me incomodava muito com o 4ª edição na mesa, fiz varias mudanças também e ele ficou mais jogavel. Interessante você mencionar o coc pq foi bem assim mesmo até a 7ª edição que mexeu mais nele. Eu particularmente adorei a 7ª edição porque já começava a ficar incomodado tb com a 6ª em alguns aspectos e estava mexendo nela já. Os designers fizeram modificações muito importantes como juntar todas as skills de ataque desarmado em uma única fighting skill. Era bisonho ter ranks em socos, chutes e cabeçadas. A eliminação da tabela de resistência foi uma boa também e tudo sem perder a essência do sistema a ponto dele ser retro compatível. Era algo assim que eu gostaria de ver no L5R porque o R&K é um sistema que apesar de pouco alterado no geral torna as edições muito diferentes. Ele precisava uma mecânica melhor de combate de massa tb pq lembro que meu grupo reclamava demais da mecânica mas não recordo os detalhes.

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  7. Certíssimo. CoC passou por muitas revisões que pouco alteraram a estrutura do jogo até a 7ª. E como você falou, mesmo as maiores alterações no jogo foram questões de bom senso e aprimoramento do sistema sem perda de retrocompatibilidade.

    Estou louco para jogar a 7ª edição aqui. Tenho muito material bom: peguei a caixa da Sans Détour, e ainda tenho as caixas London (Cubicle 7) e a do Orient Express. Coisa fina. Vou tentar tocar um CoC paralelo ao Shadow of the Demon Lord, pois a turma aqui não larga o osso de um RPG feijão com arroz de classes e níveis.

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  8. Você ja recebeu a caixa do orient express? É a da chaosium? Eu nao recebi nem o pdf ainda...

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  9. Eu comprei na Amazon faz mais de 2 anos. Você precisa entrar em contato com a Chaosium, então. A não ser que estejas no aguardo de algum conteúdo extra que foi produzindo para o kickstarter, está atrasado demais. Ao menos o PDF deveria ter vindo.

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  10. Realmente foi extra no KS da 7ª edição... quanto ao pdf ja perguntei duas vezes, mas não obtive resposta. A 7ª edição ficou excelente, já joguei bastante vc vai gostar com certeza

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