Conto: Noite Fria


NOITE FRIA


Estava voltando para casa naquela noite sem lua, o céu encoberto por nuvens pesadas, ainda lamentando nao ter tido tempo para fumar meu cachimbo ao final da reunião devido a hora, quando, passando por vielas escuras e estreitas da velha cidade, vi uma pessoa muito magra subindo a ladeira no sentido oposto ao meu. Percebi que ele procurava algo nos bolsos do casaco batido. Como estava muito frio, apertei o passo, para passar pelo estranho, quando ele me abordou, perguntando se tinha fogo. Fiquei surpreso pois estava justamente pensando em meu cachimbo, então não só ofereci-lhe a caixa de fosforos, como convidei-o para sentar-se em um dos bancos de uma pequena praça que havia a uma quadra dali para fumarmos.



Naquele momento devo dizer que, sentado naquele banco frio, no meio das árvores que cobriam a praça, apesar da estranheza da situação, senti certa familiaridade naquele estranho, apesar de poder jurar que nunca haviamos nos encontrado.


Passamos algum tempo assim, sem trocar palavra, apreciando o sabor do tabaco e o ar frio da noite. Não havia viva alma na rua aquela hora. Foi quando pude examina-lo melhor. Aparentava a mesma idade que a minha apesar de ser mais magro e mais baixo um pouco. Vestia-se decentemente, porém não eram roupas de qualidade como as que eu usava. Tão pouco parecia possuir um relógio e fumava um charuto de qualidade inferior o que me fez supor que se tratava de alguém de classe social mais baixa, talvez um trabalhador braçal ou funcionário de alguma empresa.


Sentia certa empatia por ele, pois apesar da diferença social me pareceu uma pessoa de bom gosto. Neste momento reparei em sua mão esquerda uma cicatriz praticamente idêntica a uma que eu possuo na mesma localização. Fiquei curioso e decidi perguntar-lhe, mostrando a minha própria. O que ele me contou me deixou estupefato e mais curioso ainda, pois relatou-me um acidente na infância idêntico ao qual eu sofrera e com a mesma idade! Parecia ser uma coincidência praticamente impossível. O que sucedeu-me depois só posso especular pois não tenho lembrança completa dos eventos e mesmo que tivesse perfeita memoria, nao posso simplesmente acreditar na veracidade do que acorreu, devendo provavelmente ser um truque que a mente por vezes nos aplica, talvez por alucinação ou falsas lembrancas criadas pela falta de sono, excesso de cafeína e tabaco, pela imaginação fértil exacerbada pelo ambiente onírico daquela noite escura ou quem sabe contato com alguma espécie de alucinógeno que não pude identificar até agora.


Julguem como quiserem o relato que faço agora, apenas creiam-me e permitam-me dizer que não sou louco, usuário de alucinógenos ou dado a delírios imaginativos como podem crer os que lêem a partir deste ponto.


O INCRIVEL RELATO

Em meio aquela escuridão e estranheza comecei a me sentir mais leve como se entorpecido, minha visão ficou turva por um instante e de repente não estava mais em meu corpo ou mesmo naquela mesma cidade. Olhei para a estranha figura ao meu lado e quase tive um choque, pois olhava para mim mesmo! fiquei sem reação imaginando se não estava sonhando. Olhei para as minhas mãos e elas me pareceram diferentes. A minha cicatriz estava lá, mas eram outras mãos, mais jovens, magras e ásperas. Então senti novo choque, pois estava usando as roupas do estranho. Não! Eu era o estranho! Não sei como, haviamos trocado de corpo!


Por um momento ele pareceu perturbado, mas então se acalmou como se ja tivesse conhecimento do que estava acontecendo. Ele me apontou para a praça e eu mal acreditei no que via: era outro lugar. Um parque antigo e escuro com o chão manchado de escuro como se fluidos inomináveis tivessem lavado a pedra incontáveis vezes e dando aquele aspecto de enferrujado. A iluminação era feita por lâmpadas de gás amarelado. A vegetação era de todo modo estranha, nunca havia visto as plantas e árvores ali dispostas e que pareciam ter movimento próprio independente do vento.

Algumas pessoas circulavam por ali e suas roupas eram incomuns, como usadas em outras eras. Elas passavam alheias a minha presença, algumas delas com aspectos fantasmagóricos e expressões vazias ou alienigenas como se estivessem procurando algo ou predando na noite. Essa foi a impressão real que tive naquele momento: predadores a procura, espreitando nas sombras.

Fiquei ali paralizado, com medo de me perder naquela alucinação para sempre. Percebi então que aquilo não podia ser um sonho e que o estranho ao meu lado devia saber o que estava acontecendo. Ele tentou se levantar e meu pavor aumentou pois se ele fosse embora, eu poderia ficar ali para sempre enquanto ele viveria minha vida em meu corpo. Segurei-o com força pelo braço forçando-o a sentar-se novamente. Ele soltou um suspiro como de cansaço e sentou-se novamente. Abriu a boca e falou pela primeira vez, com a minha propria voz, e o que ele me disse superou todo terror cósmico imaginavel de abismos infernais que eu poderia ter nas fantasias mais loucas.


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O QUE O ESTRANHO REVELOU E COMO VOLTEI PARA O MEU PROPRIO MUNDO

Quando impedi que o estranho se fosse ele pareceu desistir de ir embora e voltou a sentar-se. Quase que imediatamente ele me pediu que pegasse a carteira. Nela para meu espanto havia a mesma quantidade de dinheiro que eu carregava, inclusive em moedas. Não apenas isso, mas também outros pertences como um pente e uma foto de certa maneira idênticos aos que eu carregava. Entao começou a falar:


"Nao percebes que somos a mesma pessoa? Posso te dizer com detalhes tudo que se passou em nossa vida, desde que tinhamos idade para recordar. Se lhe pareço mais jovem é porque em meu mundo o tempo passa diferente do seu."


Aquelas revelações, apesar de grotescas não me pareceram absurdas depois de tudo o que tinha visto. Ele continuou:


"Sou seu duplo, se é que se pode chamar assim, ou doppleganger como nos chamam em outros países. Somos predadores e temos como último objetivo assumir a vida daqueles a quem somos um espelho. De qualquer forma não posso lhe causar mal, pois a sua morte significaria meu fim, de modo que não há motivos para me temer. Há algum tempo venho te estudando, espreitando de lugares escuros, esperando a oportunidade de lhe substituir, mas agora que tenho a chance não parece que a idéia me agrade tanto."



Não entendo, lhe disse. A sua natureza não é essa? E que será de mim? Ficarei aprisionado para sempre neste mundo estranho?



" O fato é que lhe observo há tempo demais, e isso às vezes se passa com os da minha espécie. Passei a sentir suas emoções. Agora que está com medo e assustado, isso me afeta, e imagino que não seria feliz em sua vida sentindo a sua infelicidade neste mundo dos duplos."


"Simplesmente não sei o que dizer"

"Não diga nada, apenas vá, volte para tua vida e teu corpo. Não tenho mais objetivos, preciso decidir o que fazer."


Então sentindo uma enorme empatia por ele e sem saber porque um sentimento se apoderou de mim. Foi entao que eu, em vez de aproveitar a oportunidade e ir-me, lhe pedi:


"Posso lhe ver outras vezes?"


OS ESTRANHOS DIAS SEGUINTES

Retornei à minha vida. Voltei a trabalhar, aos meus hobbies e ao convivio social, porém algo estranho parecia estar acontecendo comigo. Dia após dia a vida não me parecia ter o mesmo gosto. Tudo me parecia insípido e sem graça. A princípio não liguei este fato ao terrível encontro naquela noite fria. Cheguei a consultar um especialista que não encontrou evidência de disturbios orgânicos, dizendo que talves pudesse ser um episódio depressivo leve e me receitando umas vitaminas.

Dia após dia ficava ansioso, esperando alguma coisa que não acontecia. Decidi procura-lo. Retornei à noite naquela praça e lá estava ele sentado no mesmo banco. Senti um alivio imenso ao vê-lo.


Sentei-me ao seu lado. Ofereci-lhe fogo, e fumamos por um longo tempo. Ele parecia indiferente a minha presença e sem dizer uma palavra levantei-me e voltei para casa.



Esses encontro se repetiram por todo aquele mês. Às vezes uma vez por semana, às vezes duas. O fato é que a cada vez sentia-me mais ansioso por vê-lo. De restante, afastei-me dos conhecidos que ficaram estarrecidos quando abandonei o trabalho. Quando me olhava no espelho estava pálido e apático com olheiras fundas apesar de estar repousado, e mais, a comida não mais me satisfazia. Passei a ingerir carne crua, o que melhorou um pouco os sintomas.



Por fim tranquei-me em casa por vários dias. Meus amigos que julgavam estar eu sofrendo de alguma doença rara ou loucura me procuraram algumas vezes porém não lhes recebi. Por fim desistiram.



Uma noite recolhi alguns pertences de que necessitava e voltei a praça. Como de costume, lá estava ele no banco. Sentei-me a seu lado, mas não ofereci o fogo. Ele me olhou curioso. Então desabafei:



"Quero ser você. Nao suporto mais a vida. Existe a possibilidade de fazermos a troca?"



"Espero que esteja ciente do que está me pedindo pois isto não pode ser desfeito. Tenho sentido a agonia pela qual está passando e também sofro, mas se vc não for feliz em meu mundo, ambos sofreremos e nada poderá ser feito."



"Tenho certeza ou não lhe pediria tal coisa. Não me sinto mais o mesmo, quero ser você"


.......

E assim termina meu relato. O duplo me substituiu naquela noite. Meus amigos se surpreenderam com minha espantosa recuperação e fizeram uma festa em minha homenagem. E eu agora encontrei minha verdadeira natureza. Sou feliz na escuridão deste mundo nebuloso, predando criaturas na escuridão, me alimentando de carne humana e animal, cães que desaparecem de seus donos ou crianças recém nascidas que morrem sufocadas em seus berços sem explicação e pessoas que saem para comprar um cigarro e jamais retornam a seus lares. 

Neste mundo tenho liberdade e poderes que jamais poderia sonhar quando humano. Meu duplo parece estar se dando muito bem em sua vida humana, agora realizado em seu destino como espécie. Às vezes ainda o visito para fumarmos um cachimbo. Deixei este relato para que as pessoas saibam que coisas assim existem, porém duvido que alguém possa levar algo desta narrativa à sério e tão pouco sei qual mão segura a pena que escreve estas últimas palavras. 

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